Um dia tinha que ser...

Publicado em 25 de setembro de 2026 às 12:15

Sobre a água, sempre a porra da água por aqui.

Temos uma rotura, mas quando digo uma rotura, é daquelas que fazem o contador estar sempre a rodar e a rodar. E estamos a falar de metros e metros de canos de água espalhados pela propriedade toda, propriedade que ainda é grande. Não é uma herdade, mas é uma quinta, o que faz os canos serem mais que muitos. E onde é o raio da rotura? As contas são sempre enormes.

Canalizadores vêm, coçam a cabeça e ninguém dá com o local onde está o raio da rotura. É deitar dinheiro ao lixo. Quando se acha que se resolveu, mais do mesmo.

Isto não faz porra de sentido. Esta propriedade tem dois poços: o que fica aqui encostado à casa, com água relativamente limpa, embora com algum calcário, mas limpa o suficiente para encher a piscina tubular e tomar banho nela. Sim, a piscina ainda leva 6.473 litros com 90% da sua capacidade e, pasme-se, posso encher três piscinas só com a água deste poço aqui do terraço, o mais pequeno. Talvez até mais num dia, nunca tentei. E depois, no dia seguinte, volta a ficar com mais água.

Sim, o mais pequeno, porque ali ao fundo, a meio do terreno, tenho um segundo poço, maior e, pasme-se novamente, esse poço, bem lá no fundo, ainda tem um furo de água, algo que já vem dos anteriores proprietários.

A minha propriedade está mesmo em cima do Sistema Aquífero Tejo-Sado (Margem Esquerda), conhecido cientificamente como o [Aquífero Mio-Pliocénico da Península de Setúbal], que é uma das maiores reservas de águas subterrâneas de Portugal e da Península Ibérica.

E há anos que tenho este problema — sim, o solo por aqui é arenoso e facilita a infiltração, como pode facilitar roturas nos canos —, o contador fica a rodar dia e noite e as contas são consideráveis. A água que se perde acaba por voltar para a terra e contribuir para a recarga das águas subterrâneas. Bom para o aquífero, mau para a minha carteira.

Portanto, por mim acabou a festa, mas acabou mesmo e tem de acabar.

A festa de estar a alimentar o aquífero e, ainda por cima, a pagar por isso, enquanto tento descobrir onde raio está a fuga. E aqui não estou a dizer mal da Câmara, é o que é: quando há consumos anormais, detetam e alertam, mas só agem até ao contador. Deste para dentro da propriedade, tem de ser o proprietário a resolver.

Pedem para chamar canalizadores para tentar resolver o problema, mas estes, quando vêm, coçam a cabeça, dizem que é complicado, não encontram a origem e nunca mais aparecem.

E eu fico com o problema e com a conta.

Faltam-me apenas 50 metros de mangueira para estender deste poço até ao canil, um depósito de água que nem precisa de ser grande, mais uma bomba balão que, mal o depósito vá esvaziando, o vá enchendo e, claro, um filtro anticalcário, ligação aos tubos que alimentam a casa e está feita a festa.

Se houver uma rotura, a água que se esvazia limita-se a voltar para o solo de onde acabou de vir, não passa pelo contador e pelo meu pobre bolso.

Não é festa nenhuma, é sobrevivência. É não depender do que é complicado.

O que tem isto a ver com os meus livros?

Nada. Em último caso, dá-me experiência de vida, que é muito útil para quem escreve livros.

Pronto, por hoje é mesmo só isto e chega. Ando há anos nesta guerra e termina por aqui, mas termina mesmo.

A maioria dos meus vizinhos também não tem contador de água. Todos usam a dos seus poços, quando não são furos. Ora, se tenho dois poços, um deles com furo, porque ando há anos nesta guerra, a pagar por água que se perde no solo? Não vou abrir novos poços ou furos, mas, se eles já existem, sou parva para quê?

Acabou.

Fiquem bem,

Carla

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